Introito
Era uma manhã bem à toazinha aqui na metrópole onde se afunila a Bahia. Desci na rodoviária velha para fazer não sei o quê no centro. A antiga rodoviária nos últimos anos havia se convertido em uma mistura de muitas coisas: uma extensa galeria de lojas de roupas, bijuterias, lotereiros*, loroteiros**, pastelarias, ponto inicial e final dos ônibus urbanos, ponto de mototaxistas e tantas outras coisas. Ao lado de uma praça declarada como tal, a antiga rodoviária era uma outra praça muito espezinhada. Sua conversão de única rodoviária à "velha", como já devem imaginar, tu azarado leitor que não sabe como veio parar aqui, foi provocada por uma remodelação urbana - muito mal feita, afinal - que instalou uma rodoviária maior com alegações de melhoria no atendimento. Também mais próxima da rodovia federal para facilitar a entrada e saída dos ônibus estaduais e interestaduais. Enfim, a rodoviária, agora velha, resistiu à remodelação, talvez mais em parte porque quem propôs o projeto de mudança no município não sabia bem o que fazer com ela, e acabou, com o tempo, adquirindo direito de existência graças a esses tantos usos e desusos.
Em parte, tirando um pastel e um caldo barato, ali propriamente, pouca coisa me chamava atenção. O jornal que eu comprava, aos sábados, só porque nesse dia vinha um caderno cultural, comprava na padaria. Ninguém diabos me soube explicar porque não se vendia nas bancas. Ao redor dali havia duas. As bancas vendiam os jornais da capital do estado vizinho, mas do próprio estado, era preciso andar um pouco mais até encontrar uma padaria. E não, eles não embalavam os pães com os jornais que não eram vendidos - o que impede de pensar numa boa justificativa para esse item no meio das prateleiras. Mas não quero me perder entre jornais e pães. Acontece que em uma das saídas da rodoviária, ao lado da pastelaria, um verdadeiro shopping center se disfarçava de lojinha. Guarda-chuvas, chapéis, roupas, calçados, relógios, óculos, tudo legalmente falsificado, como assim também encontramos nos grandes centros de compras. Mas havia ali, entre os outros itens, algumas revistas de modas, de costura, e um pouco, muito pouco, alguns livros. Isso tudo podia ser notado, toda essa diversidade, com o olhar de alguns segundos. Os livros, no entanto, se destoavam no meio das outras coisas. Não parecia ser o tipo de produto que o dono da lojinha tivesse interesse em comercializar. Muitos títulos daquelas coleções de romances, nomes de mulheres, que o dono recebia por piedade de algum leitor envergonhado, sim, há leitores que se escondem por causa dos livros que leem, eram doados à loja e depois vendidos por moedinhas.
Naquele dia, porém, uma moça muito bonita encontrava-se na loja fazendo compras. Não digo que ela andava porque a loja possuía um corredor pequeno e as prateleiras eram consultadas com os olhos. Eu acabava de sair da pastelaria, ao lado, quando dei com os olhos naquela cliente que dava com os olhos nos produtos falsos, sendo que meu olhar de admiração não era nada falso. Quando ela se virou, para despistar as olhadelas minhas, desviei o olhar a fim de fingir que procurava algum livro. Como os livros estavam a meia altura, comecei a ler os títulos todos previsíveis, de histórias mais previsíveis ainda, que estavam à minha frente. Um, porém, não tinha nome nenhum na lombada. Não era um livro como os outros. Possuía uma cor amarronzada, papel muito mole, brochura. A cliente se aproximou um pouco mais e se agachou também, quase ao meio lado, e começou a olhar alguns enfeites nas prateleiras. Para aumentar o valor do meu despiste, e até porque, pela minha idade, não suportava ficar mais tempo de cócoras, peguei aquele livro sem nome na lombada, levantei e comecei a ler o seu título. Sua capa também era muito simples, sem figura ou ilustração alguma, mas um texto centralizado, rivalizando com toda aquela simplicidade, podia se ler um longo título: Colheita de contos e causos estranhos do extremo sul bahiano: uma antologia de autores vários.
Quão novidade não me pareceu aquela estranha brochura. Na capa não havia nome de organizador. Já tocado pela curiosidade, fui ler a ficha do livro, seus dados. Não possuía ISBN - mas isso não impedia de chamar-lhe livro. De ter o seu estatuto como objeto composto de páginas. O organizador, compilador no caso, era o José Rufião. A cidade do lugar da publicação era Caravelas. A editora, desconhecida para mim até aquele momento, e desconhecida até agora para tu que estás a ler pela primeira vez esse texto, se chamava Catimbeira. O ano da publicação era 2003 e constava ainda na ficha o número de páginas: 85. Parecia em bom estado. Olhei rapidamente o índice e vi que ele se compunha, além da introdução, de 18 contos. Mesmo sem avançar em todos os outros detalhes com ele na minha mão, aquele livro, pelo seu título, já havia me conquistado com a mesma sinceridade que aquela cliente me conquistara minutos antes. A diferença é que a moça havia se esfumaçado dos meus olhos ao passo que, aquele pequeno e singelo livro, brochurinha, continuava em minhas mãos. Perguntei ao dono se ele lembrava de quem havia lhe repassado aquele livro respondendo que não. Que mesmo ele não havia notado aqui. Perguntei o preço daquela antologia. Entreguei-lha em mãos. Ele deu uma olhada, parece que o olho era o legislador e meio de compra naquela lojinha, abriu, fechou, abriu, folheou uma vez, e respondeu: Dá dez reais aí e é seu! Por sorte, tinha quinze no bolso, não precisaria ir em algum terminal eletrônico e com o troco de 5 reais poderia voltar de ônibus. Quanto ao que fui fazer na rua, agora que vou recompondo essa lembrança, penso que foi para ver o preço de alguns remédios na farmácia de manipulação. Saí com meu estranho livro em mãos, fui na farmácia e voltei para casa.
No ônibus, pude folhear com mais calma o livro. Sua introdução era pequena, coisa de uma página e meia. Em casa, no mesmo dia, dei conta de ler todas as histórias. Poderia escrever o título e o que cada uma delas contava. Mas prefiro não fazê-lo com o risco de não contar tão bem e acabar por não repassar a ti, leitor, internauta, certa originalidade da obra. No momento que escrevo esse introito, neste blogue, já havia decidido de assumir por minha conta e risco o seguinte ato: o livro está aqui comigo. Pesquisei internet afora sobre ele e pelo seu organizador, pelos nomes dos seus autores. Praticamente nada achei. Com o tempo, com o que tempo que me sobra às vezes, transcreverei todo o conteúdo dessa Antologia para lhe dar alguma publicidade. Caso apareça algum reclame, ou mesmo, algum dos escritores de qualquer conto solicitando a exclusão, retirarei imediatamente. Enquanto isso, continuo conversando com alguns amigos na cidade para que me possam dar alguma pista para contactar o Sr. José Rufião. E com ele saber mais. Até lá, tudo o que se seguirá adiante, é a letra transcrita, com erros ou não, do que se encontra no livrinho de 85 páginas. Suprimirei os números das páginas por achar que seria desnecessário. Também, por uma questão de composição, transcrevo a Introdução neste introito. Se alguém não gostar, lembre-se que só se fala do miolo do pão falando no pão. Segue abaixo em itálico toda a Introdução. Os contos, em si mesmo, usarei da fonte normal.
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